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terça-feira, 23 de julho de 2013

On 05:12 by papa in , , ,    No comments
Papa

Rio de Janeiro – Uma maré de algazarra, juvenil, explosiva em sua manifestação de alegria, com violões, cantos e mochilas às vezes maiores do que os corpos que as suportam. O aeroporto do Rio de Janeiro é um desfile interminável de jovens que chegam do mundo inteiro, enrolados em bandeiras e em abraços, cantando a fé só com a voz ou com violões. A hora é, ao mesmo tempo, grave e imensamente festiva. As jornadas mundiais da juventude que começam esta semana no Brasil fixarão o rumo oficial da mensagem que o Papa Francisco apresentará em sua primeira viagem internacional. Um momento que soa como um modelo de seu nascente papado.
Ficaram para trás as disputas orquestradas por João Paulo Segundo contra a Teologia da Libertação, os padres pedófilos, a corrupção no Banco do Vaticano, o IOR. Chegou o “momento da renovação”, como dizem os jovens que chegam ao Rio. Esta renovação tem um nome que contrasta com os últimos 35 anos de política vaticana: o “evangelho social”. A palavra “social” é já todo um desafio que prolonga a ruptura que Bergoglio encarnou na noite em que, após o Conclave tê-lo escolhido Papa, apareceu em uma janela da Praça de São Pedro e pronunciou a palavra “povo”.
Em Roma, há dez dias, o círculo próximo ao Papa falava de uma “mensagem revolucionária”. É preciso esperar para ver e ouvir. Desde o compromisso de forjar “uma igreja pobre para os pobres”, Francisco foi despindo a figura papal de toda a roupagem monárquica, que a colocava acima dos fieis. Há uma grande preocupação com a comunicação, inclusive com detalhes que assombram. A Santa Sé lançou um novo semanário para amplificar a mensagem papal: Credere. A publicidade diz: “o novo semanário que fará você viver a fé com alegria”. À esquerda, na capa, um retângulo diz: “a revista da Igreja de Francisco”.
Essa é a Igreja que Francisco apresentará no mais importante país católico do mundo, Bergoglio visitará os pobres de uma favela, doentes em um hospital, receberá presos, peregrinará ao santuário de Aparecida e, sobretudo, se encontrará com jovens de todo o mundo no que pode ser chamado de “Woodstock católico”. Sua viagem vem precedida por uma série de pronunciamentos que romperam com o conformismo vaticanista. Nas últimas semanas, Bergoglio denunciou a “tirania do dinheiro”, o “capitalismo selvagem” e a “globalização da indiferença”.
“Nos encontramos enfim com alguém que vê o mundo tal como é, com os mesmos olhos que o vemos e sofremos”, diz Angélica, uma espanhola de 19 anos, recém chegada ao Rio, vinda de Valência com centenas de outros espanhóis. Um dos vaticanistas mais célebres, Marco Politi, disse que o Papa, “no Brasil, dará continuidade, aprofundará e esclarecerá seu Evangelho social. Desde que foi eleito denuncia as novas formas de escravidão, a exploração, a desigualdade, a irresponsabilidade de algumas forças sociais”.


A história também parece correr na direção de Francisco. O Papa chega a um Brasil convulsionado pela revolta social, com demandas de justiça social, contra a corrupção, a favor da renovação de um sistema político gangrenado pelo clientelismo e pela corrupção. Francisco já havia escrito o discurso central que vai pronunciar no Brasil durante as Jornadas Mundiais da Juventude, mas, à luz dos protestos, o modificou. O arcebispo do Rio de Janeiro, Orani João Tempesta, responsável pela organização da Jornada Mundial da Juventude, viajou a Roma para se encontrar com Bergoglio. Depois, o seguiu o cardeal arcebispo emérito de São Paulo, Claudio Hummes, um homem de posições sociais conhecidas por ter aberto as portas de sua igreja a trabalhadores em greve.
O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal Raymundo Damasceno, também se reuniu com o Papa em Roma. Este encontro é muito importante na definição do pronunciamento de Bergoglio, uma vez que foi precedido por uma reunião da CNBB. Realizada quase no final de junho, a reunião terminou com a redação de um documento no qual a entidade manifesta “nossa solidariedade e apoio aos manifestantes”. O texto traz um apoio total aos protestos. Um de seus parágrafos diz que os gritos contra a corrupção, a impunidade e falta de transparência (…) fazem renascer a esperança”.
É a esse mundo que chega Francisco. Um cenário ideal que as autoridades do país temem que sirva de novo elemento detonador ao que já está latente há semanas. O Papa Francisco não gosta dos esquemas de segurança e os responsáveis por protegê-lo durante as Jornadas Mundiais da Juventude não gostam da possibilidade de a chegada do papa renovar os protestos contra o sistema político. O Brasil aumento de 11 mil para 14 mil o número de efetivos das forças de segurança encarregados de garantir a segurança de Francisco. A perspectiva de uma “revolução cidadã” durante a visita de Bergoglio levou as autoridades brasileiras a propor uma série de mudanças na agenda papal, mas o Vaticano rejeitou-as. “Não haverá mudanças de programa”, disse em Roma Federico Lombardi, o porta-voz do Papa.
No entanto, as autoridades do Brasil queriam modificar um monte de coisas. O Brasil argumenta que se descobriram “indícios” de que grupos opositores preparavam uma contraofensiva aproveitando a chegada de Bergoglio. O mais perigoso era o encontro de Francisco com a presidenta Dilma Rousseff, com o governador do Rio, Sérgio Cabral, e com Eduardo Paes, o prefeito da cidade. Esse ato deve ocorrer no Palácio da Guanabara, sede do governo do Estado do Rio. Mas como há uma manifestação programada contra o governador e o prefeito, as autoridades propuseram realizar o encontro em outro lugar. O Vaticano disse que não. Mais ainda, as declarações dos responsáveis que se reuniram com Francisco em Roma mostram que a Santa Sé está com os manifestantes. Após seu regresso de Roma, o cardeal Claudio Hummes disse: “a mensagem de Cristo está em sintonia com essas reivindicações do povo”.
Será preciso esperar para ver e ouvir. Francisco se negou a utilizar o papamóvel blindado. Ele se deslocará no mesmo jeep aberto com o qual circula em Roma. Ao pedido do Papa, tampouco haverá em seu lado “homens armados com fuzis”. O Papa, dizem em Roma, não tem medo das manifestações: “elas não são contra o Papa, mas sim contra os políticos”, diz o Vaticano. Se a promessa se confirmar, haverá no Brasil um encontro entre dois mundos: o do evangelho liberal que tudo corrompe e destrói, o planeta e os seres humanos, e o que Francisco traz em sua mensagem: o “evangelho social” do cristianismo.
Primeiro ato de um pontificado que, em seus primeiros passos, expôs a escandalosa e soja trama de corrupção e lutas pelo poder que o predecessor de Francisco, Bento XVI, não pode desarmar. Isso o levou a renúncia. Evangelho Social, Teologia da Libertação, segundo vários vaticanistas ambas têm encontro marcado esta semana no Brasil em uma espécie de reconciliação misteriosa.
O vaticanista Marco Politi alega que “Francisco é um fruto inesperado da Teologia da Libertação porque é um representante da chamada Teologia Popular, que não é marxista nem politizada”, mas que denuncia com força os horrores da miséria, da desigualdade e seus mecanismos econômicos. O combate que João Paulo II travou contra essa corrente deixou muitas vítimas, pactos com as ditaduras, corrupção, uma espécie de monstro que seguiu vivo muito depois da morte do papa polaco. Por esse abismo se foi Bento XVI. Do mesmo abismo chega Bergoglio. A chamada “igreja de Francisco se constrói sobre uma montanha de cinzas ainda fumegantes”.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

On 15:52 by papa in , , ,    No comments
 Daniel Sottomaior, presidente da Atea, que organiza o evento: resposta à chegada do Papa Foto: Marcos Alves
Daniel Sottomaior, presidente da Atea, que organiza o evento: resposta à chegada do Papa
MARCOS ALVES

 No dia 22, às 17 horas, no exato momento em que o Papa Francisco iniciar seu primeiro ato em solo brasileiro, ateus do Rio, São Paulo e Porto Alegre planejam fazer, de forma simultânea, o primeiro “desbatismo coletivo” do país. O objetivo do grupo é chamar a atenção para temas como o fim do ensino religioso em escolas públicas, debater o uso de recursos governamentais na visita do Papa e a questionar a sobrevivência de símbolos religiosos em órgãos oficiais, como crucifixos nas salas de julgamento do Judiciário. Segundo os organizadores, ainda há muito preconceito e intolerância com pessoas que não têm religião no Brasil.

O “desbatismo” vai seguir a fórmula que já ficou consagrada em outros países, sobretudo nos Estados Unidos, onde o movimento de “ateus praticantes” está mais desenvolvido: haverá uma espécie de cerimônia para as pessoas interessadas em “apagar” o batismo a que foram submetidas enquanto ainda eram crianças. O primeiro passo será “ouvir” algumas palavras em latim “de mentirinha”. Na sequência, “os desbatizados” passarão por uma sessão sob secadores de cabelos, “para fazer evaporar do corpo as últimas moléculas de água do batismo involuntário com os ventos do secularismo”. Após isso, as pessoas assinarão um livro de presença e receberão um diploma de “desbatismo”.
O evento está sendo organizado pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea). Em São Paulo, onde os preparativos estão mais adiantados, o evento será na Praça da Sé. Os organizadores ainda estão definindo o local do evento no Rio e em Porto Alegre. Segundo Daniel Sottomaior, engenheiro de 41 anos que preside a Atea, a organização, que conta com cerca de 10 mil filiados, ainda tentará fazer eventos como este em outras cidades brasileiras, de forma simultânea.
— Devemos entrar com um Habeas Corpus preventivo pois o Exército disse que vai prender ou dispersar os manifestantes em São Paulo — afirmou Sottomaior.
Ele afirma que a entidade defende os interesses dos cerca de 2 milhões a 4 milhões de ateus e agnósticos do país. A Atea afirma que o IBGE, por um problema metodológico, subnotifica o grupo, estimado oficialmente em 740 mil pessoas. Isso porque, o grupo acredita que o instituto inclui grande parte dos descrentes na categoria “sem religião”, que conta com 14,5 milhões de pessoas no país, de acordo com o Censo de 2010.
Mas, o “desbatismo” também estará aberto às pessoas de outras religiões ou quem não se sente representado pelo batismo involuntário da igreja católica.
— Sendo desbatizada, a pessoa mostra que não quer se vincular com o que a Igreja Católica faz ou diz — disse.
Além de ser uma resposta da vinda ao Papa ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, o ato visa debater diversas questões. Sottomaior lembra, por exemplo, que não se pode justificar os gastos públicos da visita do Papa com o argumento de que ele é um chefe de Estado. Isso porque, conta, o objetivo da visita é eminentemente religioso, não serão tratadas questões diplomáticas. Para ele, é como o Brasil gastar recursos públicos para garantir uma viagem de férias de Obama às praias brasileiras.
— Temos que discutir os problemas que afligem os ateus. O Brasil ainda conta com ensino religioso em órgãos públicos, ainda há símbolos religiosos em órgãos de governo. O estado laico, secular ainda é uma falácia — disse.
A Atea, que se mobiliza nas redes sociais, onde conta com cerca de 270 mil seguidores, lembra que os ateus ainda sofrem preconceito. A instituição cita pesquisas que indicam que 70% da população não votaria em um ateu para qualquer tipo de cargo político.

— Esse é um país que ainda pensa com a mentalidade de um país católico — conta Sottomaior, que não faz previsões sobre o número de participantes no evento: — Deixem isso para os religiosos —provoca.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

On 07:20 by papa in , ,    No comments